CRÓNICA DO CAMPO 2026
Diário de expedição
1º Dia – A PARTIDA
Deviam estar uns 50ºC quando fomos largados em território desconhecido do interior de Portugal. Tudo indicava estarmos perto de Viseu e, ao sinal de um dos padres, levamos de arrasto malas e mochilas para o ponto de encontro de todos os cavaleiros de São Nuno. Era bom voltar a encontrar velhos companheiros de batalha e acolher novos recrutas nas nossas fileiras. Mas a alegria do reencontro não podia fazer-nos baixar a guarda porque, daí a momentos, formaríamos patrulhas em competição!
Privados do sentido da visão, tivemos de identificar os nossos aliados no meio de uma balbúrdia só comparável à Arca de Noé! À nossa volta, dezenas de cavaleiros procuravam desesperadamente os seus companheiros, tateando, mugindo, sibilando, grasnando, para reconhecer, entre a multidão, aqueles que haveriam de ser os seus aliados na aventura deste ano.
As cinco patrulhas foram definidas. A partir de agora, cada cavaleiro lutará pela glória da sua própria bandeira. E todos, pela glória da Bandeira de Cristo! Cá vamos nós rumo a Aveiro!
2º Dia – ROCK & STARS
O nosso primeiro acampamento foi estabelecido em terras de Valadares. Tivemos de pagar com suor a conquista daquele território, escolhendo uma posição estratégica para assentar as tendas e evitar os acampamentos das gentes atraídas por um concerto de Rock na região - que prometia uma generosa dose de guitarras e decibéis.
A Santa Missa foi celebrada numa antiga igreja de rocha granítica, daquelas que ilustram a solidez da nossa religião pela solidez das suas paredes. Com o coração fundado na Rocha de Cristo, sentimo-nos preparados e de pés mais ligeiros para enfrentar a primeira grande etapa da nossa caminhada.
O acampamento seguinte estendia-se por um amplo campo de terra, perfeito para fazer mira aos adversários, em mais uma grande competição. Quando a noite caiu, as estrelas salpicaram a abóbada celeste, revelando que, por cima das nossas cabeças, havia todo um cosmos ainda por descobrir. De facto, o senhor pároco, que nos visitou nesta noite, partilhou connosco um pouco dos seus conhecimentos sobre o astros e os seus segredos, num verdadeiro espetáculo de sabedoria e lasers.
Entre constelações, planetas e mitologias, percebemos o quanto somos pequenos na imensidão do Cosmos. Mas a catequese sobre o tema da Rota “Fazei isto em memória de Mim” fez-me ficar a pensar: não obstante todas estas maravilhas da Criação, Deus, quis fazer-Se pequeno por amor de nós, descendo até à humildade da Sagrada Hóstia para Se dar inteiramente a cada um. Que mistério!
3º e 4º Dia – SÃO FRANCISCO
Partimos cedo, cheios de vigor e prontos para a aventura. Conhecendo os padres sabíamos que as coisas estavam prestes a aquecer. Por entre fragas e floresta, descemos uma encosta profunda, oculta pela vegetação densa e pelo difícil acesso, enfrentando serpentes, aranhas e outras criaturas selvagens (eu podia jurar ter visto um urso!). Até que, para nossa surpresa, fomos dar com um verdadeiro oásis: a Quinta de São Francisco!
O silêncio daquele vale fantástico só é perturbado pela melodia das quedas de água, que alimentava piscinas naturais límpidas como cristais. Nos socalcos deste vale, como se tivessem nascido da própria montanha, casas de xisto erguem-se em perfeita harmonia com a paisagem, dando a este recanto um ar de refúgio secreto.
À sombra de árvores centenárias, largámos tendas e mochilas, desesperados por testar, sem demoras, as águas do rio - e a coragem dos mergulhadores! “O último a saltar é um ovo podre!”.
À noite, os padres e monitores prepararam-nos um verdadeiro espetáculo teatral, no Fogo de Bivaque, o primeiro de sempre da Rota! Com espadas, efeitos pirotécnicos e sonoros, por momentos, a Batalha de Aljubarrota parecia desencadear-se diante de nós - infelizmente, sem baixas a registar.
O dia seguinte foi Domingo. Tivemos Missa cantada ao ar livre, na capela da quinta. Estas Missas diárias fazem-me pensar que talvez seja menos Deus que precise de Se aproximar de mim, e mais eu que precise de aprender a aproximar-me Dele. As catequeses, as amizades e as grandes conversas têm-me feito perceber isso.
Quanto aos jogos, o “Super Boi” não teve hipóteses! Diante da investida dos caçadores, capturamos todos os bovinos do vale! Ao cair da noite, a batalha deu lugar ao arraial: churrascada, música e cantigas pela noite dentro.
5º, 6º e 7º Dia – NO MEIO DO RIO
Estes dias foram muito intensos e só hoje tive tempo para escrever o relato! Porque, se ficássemos mais tempo em São Francisco, a nossa missão estaria comprometida. Foi, pois, necessário que continuássemos a marcha em direção a Aveiro. Às ordens dos chefes, levantámos acampamento. Mas, desta vez, a partida não se fez por terra. Fez-se por água.
A saltar de pedra em pedra, a nadar, a rastejar, descemos o rio Teixeira caminhando sobre as águas. As Anacondas não ousaram aproximar-se do nosso pelotão. Eu bem as vi a espreitar! Aposto que, se não tivéssemos mantido os olhos bem abertos e socorrido uns aos outros, os nossos cavaleiros mais pequenos teriam virado aperitivo.
Parámos em Lourizela e, no dia seguinte, partimos para Pessegueiro do Vouga. Devemos ter andado uns 200 quilómetros nesse dia — e sempre a subir! Por vezes tenho a impressão de que os padres querem mesmo matar-nos. Só pode! Mas confesso que aquele javali do jantar (quase) compensou todo o esforço. Entretanto, um padre com trilhões de Aura chegou para passar uns dias connosco!
Para prosseguir caminho, voltámos a descer ao rio. Desta vez, porém, andar sobre as águas já não parecia uma opção: o Vouga não era nenhum riacho. Os chefes tinham tudo planeado e, de pagaia na mão, metemo-nos rio adentro em canoas. Remámos, remámos e, entre salpicos e braços cansados, lá chegámos ao nosso novo ponto de paragem: Jafafe.
O novo acampamento tem um campo de futsal! Os nosso braços estavam cansados, mas as pernas estavam prontas para fazer pagar cara a vitória.
8º Dia – POR NOSSA CONTA
Os padres continuam a maquinar formas de testar os nossos limites! Desta vez, tenho a certeza de que queriam descobrir quantos de nós chegariam vivos ao destino. Depois de nos darem água e comida, puseram-nos nas mãos um mapa todo cortado e deixaram cada patrulha entregue à sua sorte, com uma única missão: chegar a Oliveirinha primeiro!
E mais! Certamente para nos espiar, cada patrulha recebeu a companhia de um padre ou
chefe. Não dizia nada, não ajudava em nada e, pior ainda, consumia os nossos já limitados recursos. Muito suspeito…
A corrida foi acérrima, e a pressa foi nossa inimiga, porque a cada má decisão perdemos tempo até reencontrar o bom caminho ou um atalho.
Depois da Missa em honra de Nossa Senhora do Carmo, reunimo-nos para o jantar em formação quadrada. Seguiu-se um leilão de bolos, os quais se compravam, não com moedas, mas com flexões e outros desafios. Como temos mais olhos do que … braços, nunca uma sobremesa custou tanto a conquistar!
9º e 10º Dia – O SANTUÁRIO
Aveiro é mais longe do que eu pensava. Andámos por horas até chegarmos a este pinhal arenoso que se estende a perder de vista à nossa volta numa interminável monotonia de troncos e agulhas. Mas, de repente, encontrámos no meio da floresta um grande jardim, com uma pequena capelinha pitoresca no meio: o santuário de Nossa Senhora de Shoenstatt. O lugar era pululado por irmãs religiosas muito simpáticas, e o território destinado ao nosso acampamento estava cheio de artifícios e obstáculos que deixavam antever as aventuras que se seguiram.
É a primeira vez que vejo padres a fazerem contrabando! De balões de água! Realmente, ainda sou novo e há muita coisa por ver neste mundo.
Na primeira noite que aqui passámos, quando finalmente tinha pregado olho (estava difícil porque certa pessoa que não nomearei ressona como um trator), fomos acordados com ordens de manter o silêncio. Ao que parece, o plano de uma emboscada espanhola ao nosso acampamento tinha sido intercetado, e era preciso abandonar o local em segredo e procurar um esconderijo na mata.
O bravo Adolfo, o gigantesco cão que tinha decidido guardar-nos desde Oliveirinha, acompanhou-nos sem hesitar, mesmo quando estivemos debaixo de fogo. Um verdadeiro cavaleiro de quatro patas!
O dia segui-se à noite e as pontuações estão a chegar ao fim! Era chegada a hora de descobrir a patrulha vencedora do Campo! E para isso, convocaram-se os Jogos Vorazes, onde a carnificina foi indescritível!
O crepúsculo foi coroado com o anúncio da patrulha vencedora e pela investidura de novos treckados. Tudo isto, apimentado por uma feijoada brasileira caida do céu! E à noite, fomos até ao covil dos antigos combatentes da guerra do Ultramar para ouvir as suas histórias e memórias.
11º Dia – ITE MISSA EST
Depois de tantos dias a caminhar, a jogar, a rezar e a descobrir novos lugares deste nosso Portugal, a meta estava à vista! Aveiro! A Veneza portuguesa (ou será que Veneza é o Aveiro de Itália?). As pernas estavam cansadas, as bolhas rebentadas, as malas pesadas mas, se fosse preciso fazer mais caminho, acho que teria feito de bom grado! Passou tão depressa, e já estávamos para nos despedirmos.
As nossas famílias vieram para a Missa de envio. Que grande Missa! O padre até pregou do púlpito alto! E a beleza da liturgia antiga parecia ter sido feita para a beleza daquela igreja tão tipicamente portuguesa, com talha dourada e azulejos.
Mas chegou a hora de voltar para casa. Só que já não me sinto o mesmo. Aprendi muitas coisas, conheci pessoas incríveis e descobri que consigo viver dez dias sem estar agarrado a um ecrã. Descobri também a alegria de caminhar, de servir os outros e de trabalhar em equipa. Mas, sobretudo, percebi que a oração e a Eucaristia não são apenas coisas desta Rota: são o ar e alimento necessário à nossa caminha espiritual! Levo para casa grandes resoluções e peço a Deus que me ajude a continuar em rota em direção a Ele!
Quero levar comigo aquilo que estes dez dias me ensinaram: rezar mais, estar mais perto de Deus, procurar menos o ecrã e mais as pessoas que tenho à minha volta, e não esquecer que, mesmo quando o caminho parece difícil, nunca caminho sozinho. Uma vez Cavaleiro de São Nuno, para sempre Cavaleiro de São Nuno!

